STORYTELLING N° 7 - EDIÇÃO CERTA NO LUGAR ERRADO
Há lugares que não passam pela nossa vida. Eles atravessam.
Entramos acreditando que será só mais um endereço no currículo, mais uma porta aberta no desespero da necessidade. Mas alguns lugares não querem o que sabemos fazer. Querem testar o quanto conseguimos suportar.
Era 2004. Eu carregava dívidas, um filho, um diploma em construção e um corpo cansado de tentar dar conta de tudo. Mãe solteira, profissional do audiovisual, CLT, estudante. Eu vivia no modo urgência. Não havia escolha elegante. Havia sobrevivência.
Quando soube da nova empresa de telecomunicação, enxerguei ali um respiro. Um turno a mais. Um dinheiro a mais. Uma chance de equilibrar o mundo. Fiz todos os testes como quem atravessa uma ponte estreita. Passei. Passei bem. Passei com louvor. Entrei acreditando.
Eu ia feliz. E isso hoje me parece quase ingênuo. Acordava cedo, pegava ônibus, descia na rua da banquinha de café. Cuscuz, queijo, ovos. Pequenos rituais que sustentavam meus dias. Subia para o prédio e passava a manhã inteira diante de um iMac que ainda cheirava a novidade. Aprendi rápido. Aprendi muito. Dei tudo de mim. Sempre dei.
Editei comerciais, matérias que nunca foram ao ar, vinhetas que nunca respiraram fora do HD. Fiz animações tímidas, documentários ambiciosos. Me encantei com histórias que talvez ninguém mais tenha visto. Trabalhei como quem acredita que esforço constrói permanência.
Mas o trabalho não sabe reconhecer luto.
No final daquele ano, meu pai adoeceu. Doze dias na UTI. Doze dias em que o relógio parecia correr mais rápido do que eu. A família se revezava. Eu queria estar lá. Mas o trabalho ocupava quase todo o meu dia. Consegui vê-lo apenas três vezes. Três.
No dia em que ele morreu, eu estava sentada na minha mesa. Uma mesa simples, enfeitada com flores artificiais compradas na pressa, perfumada com Portinari. Um gesto pequeno de humanidade num ambiente que não gostava disso. O céu estava nublado quando o telefone tocou.
“Ele lutou o máximo que pôde.”
Não lembro de ter pensado. Apenas gritei. Chorei. Pedi desculpas. Pedi desculpas por sentir dor. Pedi desculpas por ser humana. Pedi desculpas por não conseguir continuar funcionando como máquina.
O diretor não pediu desculpas de volta. Disse apenas para eu sair. Disse que minha dor pesava o ambiente. Concedeu três dias. Como se o luto tivesse prazo.
Saí quebrada.
Voltei dias depois achando que ainda havia algo para segurar. Mas o lugar já tinha decidido por mim. A empresa fora vendida. O esforço evaporou. Fui demitida por telefone. E quando voltei para buscar o que era meu, fui barrada no portão. Não pude nem me despedir da mesa, das flores, do perfume. Mandaram um colega trazer minhas coisas.
Ali, algo se fechou.
Por anos, tentei entender. Me culpei. Senti vergonha. Rasguei o uniforme. Apaguei fotos. Apaguei histórias. Escondi essa memória como quem esconde uma cicatriz feia demais para mostrar.
Hoje eu entendo.
Não era sobre competência. Não era sobre entrega. Não era sobre energia pesada. Era sobre estar viva no lugar errado.
Aprendi que podemos ser excelentes, dedicados, apaixonados. Mas, se o lugar não comporta humanidade, ele transforma virtude em defeito. Sensibilidade em fraqueza. Dor em incômodo.
Saí dali. Continuei. Trabalhei em outros lugares. Fui reconhecida. Cresci. Hoje faço o que amo. E faço melhor, porque sobrevivi.
Alguns lugares ensinam. Outros ferem. E alguns fazem as duas coisas ao mesmo tempo.
Essa história fica aqui, no Além do Roteiro, para lembrar que nem todo sonho de entrada merece permanência. E que sair também é um ato de coragem.
Experiências sempre são válidas. Mesmo as que doem.
E especialmente essas.
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