STORYTELLING N° 05 - 1988 QUANDO TUDO COMEÇOU

Aos dez anos, ela acreditava que existia uma caixa mágica cheia de cor. Não era metáfora ainda, era verdade absoluta. Diante dela, um arco-íris vivo se mexia, pulsava, respirava. Aquelas cores não estavam apenas na frente dos seus olhos — atravessavam o peito, invadiam o coração pequeno e faziam nascer uma alegria tão grande que o corpo precisava responder. Ela cantava, dançava, pulava, sorria sozinha, como quem brinca dentro de um sonho acordado. Seus olhos, atentos e curiosos, não refletiam luz: irradiavam.





















Era 1988 quando seus pés tocaram, pela primeira vez, o chão de uma televisão. Não entrou sozinha. Foi levada pela mão por sua grande heroína — uma irmã que parecia viver dentro daquela caixa encantada. Cada passo era um frio novo na barriga. Cada corredor, um mistério. Cada porta, um presente ainda embrulhado. Tudo ali era grande demais para uma menina de dez anos: as salas, as cadeiras, as mesas, os olhares. Tudo tinha luz. Tudo tinha som. O ambiente era frio, diziam que para proteger as máquinas, não as pessoas. Homens e mulheres vestiam casacos grandes, falavam pouco e andavam rápido. E então ela viu: câmeras longas, pretas, cheias de botões, apontadas para pessoas sentadas diante de uma mesa arredondada, maquiadas, concentradas, prontas para falar com o mundo.

Sua heroína precisou deixá-la ali, num cantinho discreto do estúdio. O jornal vespertino estava prestes a ir ao ar e trabalho não espera sonho. A menina ficou. A respiração curta, controlada. O suor escorrendo pelas mãos e pelos pés. Os olhos arregalados, atentos, com medo de piscar e perder qualquer fragmento daquele momento que já se anunciava eterno.

E então aconteceu.

A luz acendeu. A música forte e envolvente tomou o espaço. O som ecoou pelas paredes, atravessou o corpo da menina, gravou-se na memória. As pessoas começaram a falar olhando para aquela caixa gigante, como se conversassem com algo vivo. Foram minutos. Foram segundos. Foram horas. O tempo perdeu o sentido. O que aconteceu ali durou para sempre dentro do coração daquela criança.

O tempo, porém, seguiu seu curso. A menina cresceu. Estudou. Viveu. Conheceu o mundo ao redor. Mas aquele brilho, aquela luz, aquele som nunca a deixaram. Permaneceram guardados, como um segredo bom, pulsando silenciosamente dentro de um coração sonhador.

Em 1994, veio a encruzilhada. Era tempo de decidir: Vestibular. Curso técnico. Tornar-se “alguém”. Os pais sonhavam para ela um futuro seguro, traçado com números exatos e estabilidade garantida. Queriam vê-la seguir a carreira do padrinho, entrar num grande banco, construir uma vida financeira sólida, previsível, com aposentadoria certa. Ela tentou. Tentou caber naquele sonho. Mas o coração, indomável, gritou mais alto: a caixa mágica era a sua chance.

Com firmeza inesperada para alguém tão jovem, ela convenceu os pais a deixá-la tentar um caminho voltado ao audiovisual. Tinha um exemplo dentro de casa — instável, irregular, áspero como estrada esburacada — mas profundamente verdadeiro. Ela sabia. Sabia que chegaria novamente àquele lugar de luz, cor e som.

Procurou com cuidado. Avaliou possibilidades. E encontrou na Eletrônica o início do seu traçado. Passou. Estudou. Mergulhou. Focou em aprender, em fazer, em se destacar. Não havia espaço para dúvida. Havia trabalho.

Em 1997, bem colocada em uma turma predominantemente masculina, a menina — agora moça feita — conquistou uma vaga. Não mais naquele primeiro prédio, subindo o morro da infância. Mas numa caixa mágica ainda maior, mais brilhante, mais exigente. Entrou com tudo. Usou força, inteligência, perspicácia. Aprendeu rápido. Decifrou máquinas, entendeu engrenagens, dominou os bastidores que fazem o encanto existir.

Ali, a menina virou mulher. E dali saiu uma grande mulher. Tornou-se mãe, apaixonada pelos filhos. Enfrentou quedas, tropeços, silêncios e injustiças. Levantou-se inúmeras vezes. Estudou mais. Trabalhou mais. Mergulhou profundamente no mundo invisível do audiovisual de seu estado. Tentou. Vacilou. Caiu. Levantou. Construiu uma trajetória feita de luta, suor, desafios e resistência. E viveu, dia após dia, a evolução de uma profissão que nunca termina — porque a tecnologia muda, a arte se reinventa e o sonho insiste em crescer.

Hoje, ela gosta de contar histórias. Gosta de ouvir também. Carrega a memória como quem carrega um arquivo precioso. 
Quer deixar tudo registrado: nas linhas, nas páginas, nas entrelinhas do audiovisual. 

Porque aquela menina de dez anos ainda existe. Ainda está ali, de meias coloridas, diante da caixa mágica, com os olhos cheios de luz — provando que alguns sonhos não passam: apenas aprendem a operar os bastidores.




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