STORYTELLING N° 03 - ELA ERROU EM TRABALHAR DOENTE


Havia um tempo — e não é tão distante assim — em que a televisão era um organismo vivo. Respirava ainda só por cabos, pulsava por milhares de botões, piscava em monitores alinhados como sentinelas. Chamavam-na de caixinha mágica, mas quem a fazia funcionar conhecia o peso real da engrenagem. Na switcher, as pessoas se organizavam em um silêncio coreografado. Um ao lado do outro, na frente de máquinas grandes e complexas. Cada cadeira era um posto de batalha. Cada dedo, um segundo exato para agir.

Errar era humano — mas era imperdoável.

Ela, a Finder, aprendera tudo ali dentro. Não por herança, não por favor. Aprendera sentanda em todas as cadeiras, uma a uma, a importância de cada ação, operando, alinhando, modulando, exibindo frame a frame como quem aprende a ler o mundo pelas imagens.

Finder via antes. Via melhor. Via tudo.

Sua voz atravessava o estúdio pelos fios do intercom. Era ordem, era cuidado, era visão. Porque enquanto os cinegrafistas miravam lentes, ajustavam as câmeras, nivelavam os tripés, ela, como uma Diretora de TV, mirava o todo.

Mas era a única mulher no meio de vários homens. E isso, naquele lugar, era um erro de fabricação.

Naquela quarta-feira chuvosa, o corpo dela já gritava antes da voz. Uma otite antiga, reincidente, insistente — dores no ouvido, na garganta, no nariz, doía na atenção. Já era a quarta vez no mesmo ano. Nenhuma ida ao médico tinha dado resultado. Havia programas demais para editar, horas extras demais, e também um programa dominical famoso que era colocado ao ar pela manhã e ela não podia se permitir adoecer e faltar. A doença ficou. A dor aumentou. O trabalho também.

Minutos antes do Ao Vivo, ela percebeu: a câmera estava desnivelada. Enquadramento torto. O mundo inteiro, torto. O enquadramento errado não podia ir ao ar. Ela chamou o cinegrafista no intercom. Garganta dolorida. Ouvido explodindo de dor. Olhos lacrimejantes. Febre insistente... 

Chamou o cinegrafista. Chamou mais alto. Chamou de novo. Ninguém respondeu.

Só o que vinha eram murmúrios, vazando pelos fones que ela colocava na cabeça mesmo doendo o ouvido, como veneno lento:

— Essa menina nunca vai mandar em mim.

— Ela é tão burra, só sabe gritar.

— Não sabe de nada. Devia se pôr no seu lugar.

Não era o ouvido inflamado que doía mais. Era o coração tentando continuar como uma profissional num lugar onde sua autoridade era tratada como afronta.

Ela tirou o intercom da cabeça e continuou. Às vezes, silenciar é o único jeito de não quebrar por dentro.

Na sua concepção — ainda ingênua, ainda justa — ela acreditava que, no comando da Direção de TV, os profissionais fariam o que sabiam fazer. Afinal, o Ao Vivo não espera. A história não pausa. A imagem vai ao ar, torta ou não. 

Na sua concepção, no comando da Direção de TV do programa, ela tinha certeza que os profissionais sabiam o que fazer. Mas, o que aconteceu foi um enquadramento torto no ar, movimentos bruscos, que ela chamava de chicote, desfoque sendo corrigido no ar, tremor no quadro parado... e um fiasco de qualidade no final da transmissão. 

Quando tentou conversar, a voz rouca a fez gritar e um dedo e um rosto encostou no seu, esbravejando palavras duras e pesadas de se ouvir. Finder revidou e uma discussão muito séria aconteceu. O que ela ainda não sabia é que aquela não era apenas uma falha técnica. Era um retrato histórico. Uma mulher humilhada, não por errar, não por gritar, mas por existir num lugar onde liderança tinha voz masculina e obediência seletiva.

Depois de tudo, acalmado os ânimos, o choro veio... copiosamente ela chorou, soluçou, desabou. 

Após alguns dias, Finder se sentindo uma péssima profissional, pensou em pedir demissão, mesmo amando o seu lugar, mesmo amando o que fazia. Ela foi chamada pela diretora geral e ouviu o mais belo discurso sobre o seu trabalho, que ela nunca pensou que alguém conseguisse enxergar. As palavras ecoaram anos e anos em seu coração e a fizeram perdoar as pessoas daquele cenário.

O que ela ouviu foi: 

- Finder, você chegou aqui uma menina, estagiária, sem saber de nada, mas sedenta de aprendizado. Você já me pediu pra fazer de tudo um pouco e sempre ouviu um SIM. Você ajuda a todos que podem sem hesitar. Você não estagnou, não cansou, não desistiu quando as coisas não deram certo. A sua timeline é crescente. Para você saber, Finder, eu tenho profissionais há quase 30 anos que fazem a mesma coisa todos os dias e ainda erram. E você não está no mesmo lugar que começou e almeja chegar muito mais longe. E eu vou deixar. Então, não deixe que palavras depreciativas de quem não faz nada além do que sua obrigação lhe tire esse brilho lindo no olhar. Vá. Continue o seu caminho.

E a televisão seguiu. O programa foi ao ar todos os domingos.  

Mas algo ali se quebrou, não na caixinha mágica, e sim na certeza de que sua competência, sozinha, bastaria pra calar a voz machista ao seu redor.

Essa é a história de muitas.

Mas foi escrita no corpo de uma mulher só.




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