STORYTELLING N° 04 - CRÔNICA DE UM EDITOR ÚTIL. QUANDO CAIU NINGUÉM ESTAVA LÁ.
Aquela sala de edição já fora um pequeno império.
Oito ilhas alinhadas como trincheiras modernas, cada uma com sua tela acesa, seus atalhos memorizados, seus fones gastos pelo uso diário. Ali se fabricava o tempo: cortava-se segundos, colavam-se emoções, organizava-se o caos para que o mundo, do lado de fora, acreditasse que tudo sempre esteve sob controle.
Até que veio a recessão.
Veio silenciosa, como costumam vir as tragédias que não pedem licença. Primeiro, os olhares desconfiados. Depois, os sussurros nos corredores. Por fim, o anúncio seco, sem poesia alguma: a empresa estava à beira da falência.
Num espaço de dias, a sala cheia virou um eco. Das oito ilhas, restaram apenas três ocupadas. As outras ficaram como esqueletos de um passado recente — cadeiras vazias, mouses imóveis, monitores desligados que pareciam observar tudo com uma melancolia muda.
Mas o trabalho… ah, o trabalho não diminuiu.
Era edição para ocupar oito computadores.
Era serviço pesado.
Era uma demanda sem fim despejada sobre três pares de ombros.
Entre eles estava Meevi.
Meevi ainda era estagiário — e ser estagiário, naquele tempo, significava ser tudo e mais um pouco. Editava jornalismo com a precisão de quem sabia que um segundo a mais podia comprometer a notícia. Editava matérias especiais, lapidando histórias alheias enquanto a sua própria ainda se escrevia. Editava esporte, sentindo o ritmo acelerado dos cortes como quem acompanha um coração disparado. Editava programas gravados, aprendia com erros, acertava por insistência.
E quando não estava editando, estava observando.
Aprendeu a operar as máquinas da switcher como quem decifra um idioma estrangeiro. Controlava VTs, cuidava dos caracteres, ajustava o áudio, e, quando preciso, cortava câmeras na mesa do jornal que ia ao ar todas as tardes — aquele jornal que não podia falhar, jamais.
Meevi aprendeu cedo outra lição: chegar antes do horário e sair apenas quando o último se levantava. Não por obrigação, mas por fome. Fome de aprender. Fome de ser melhor. No peito, crescia uma ambição limpa, quase inocente, de quem acreditava que o audiovisual era uma forma de viajar o mundo sem sair do lugar.
Ele sonhava alto.
Sonhava longe.
Imaginava-se dono da própria produtora, assinando transmissões gigantescas, cobrindo os maiores eventos do planeta, levando imagens onde ainda não haviam chegado. A imaginação de Meevi não tinha cercas.
Até que o dia escuro chegou.
Chegou como lâmina afiada, cortando sonhos sem anestesia. Um a um, os editores foram chamados para a sala do RH. Um a um, saíam de lá com os olhos baixos, carregando caixas improvisadas e despedidas silenciosas. Cada porta que se fechava levava junto uma certeza: ele seria o próximo.
Meevi sentiu o gosto metálico da perda antes mesmo de ela se concretizar.
Mas o final da tarde reservava outro destino.
— MEEVI, VOCÊ SABE FAZER EFEITO 3D? VENHA AQUI, POR FAVOR!
A pergunta ecoou pela sala como um tiro no escuro. Meevi não sabia. Não de verdade. Mas sabia tentar. E tentou.
Sentou-se na cadeira do melhor editor daquela sala — uma cadeira que ainda guardava a memória de quem a ocupava. Com mãos cautelosas e coração acelerado, arriscou um efeito simples nos caracteres. Nada grandioso. Nada revolucionário.
O suficiente.
O produtor gostou. Sorriu. Aprovou.
A partir daquele dia, Meevi deixou de ser apenas estagiário. Assumiu quatro, cinco funções. Ocupou três computadores, revezando entre dia e noite, atravessando madrugadas para entregar tudo o que era exigido — e mais um pouco. A produtora, mesmo ferida, manteve-se de pé. Menor em gente, maior em entrega.
Nos raros momentos livres, Meevi estudava. Aprendia sozinho o que não dominava na edição não-linear. Fortaleceu o setor, que encolheu em espaço físico, mas cresceu em qualidade. Os lucros voltaram. O dono nunca reclamou da falta de pessoal. Afinal, não fazia falta.
Havia ali alguém que estava sempre disponível.
De dia.
De noite.
Na madrugada.
A empresa se consolidou novamente no mercado e voltou aos primeiros lugares de reconhecimento no Piauí.
Meevi se orgulhava. E dizia.
— Eu sou o melhor agora. Vou ficar ainda mais profissional. Vou ganhar muito mais com tudo o que sei fazer.
Mas o corpo, esse arquivo frágil que nenhum software salva, começou a falhar.
Um cisto surgiu. A urgência bateu à porta. O sistema público não tinha tempo — e esperar não era opção. No particular, os valores eram impossíveis. Meevi correu até a direção da empresa, abriu o peito, explicou a delicadeza do momento, a pressa da vida.
Ouviu, então, a frase mais curta e mais pesada de sua história:
— Desculpe, Meevi. A empresa não pode fazer nada por você.
Foi como um soco no estômago.
Ele havia doado tempo, inteligência, saúde. Havia segurado o trabalho de cem peões. Entregara mais do que o esperado por anos. E agora, quando precisava de ajuda para continuar vivendo, ouviu um “não” seco, burocrático, definitivo.
Sem pensar, Meevi saiu da ilha de edição aos prantos. Pegou seus pertences. Foi embora.
A queda foi grande.
Mudou de cidade. Encontrou abrigo na família, que se organizou numa vaquinha solidária. O tratamento veio. A cura também — lenta, mas firme.
Sem voltar ao trabalho de antes, Meevi decidiu estudar. Fez faculdade. Foi o melhor da turma. Formou-se. Tornou-se empresário. Criou sua própria empresa, empregou pessoas, cresceu. Fez sucesso.
Tornou-se o maior concorrente daquela empresa que um dia lhe negara ajuda.
Detalhe cruel da história: aquela empresa nunca mais cresceu. Perdeu qualidade, perdeu espaço, arrastou-se no mercado, pequena, incapaz de entregar o que Meevi havia entregado sozinho um dia.
Meevi escreveu um livro sobre sua trajetória. Ganhou prêmios em festivais literários pelo país.
E nunca — em nenhuma linha — falou da decepção que viveu naquele lugar.
Porque algumas histórias não precisam ser denunciadas.
Elas se vingam sozinhas, com o tempo.
Conte-nos a sua história além do roteiro enviando para o nosso e-mail:
papodeeditor.alemdoroteiro@gmail.com

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