STORYTELLING Nº 01 - SER NECESSÁRIA NÃO É O MESMO QUE SER VALORIZADA
Timeline sempre disse sim.
Não por submissão. Mas por acreditar que trabalho bem feito era uma forma de permanecer, de se fixar, de ser importante no que fazia todos os dias.
- Sim, eu faço.
- Sim, eu fico.
- Sim, eu resolvo.
No começo, como estagiária, ela aprendeu a editar vídeo muito rápido e já teve seu primeiro desafio em 3 semanas de teste. Ficou só na edição por pouco tempo. No setor operacional, com várias funções em muitas máquinas grandes e complexas, sua curiosidade aguçada ao redor da caixinha mágica a fez pedir para os colegas de profissão que ensinassem tudo pra ela. E ela aprendia cada dia mais.
Era edição. Era operação de máquinas. Era cortes. Era ritmo. Era silêncio no tempo certo.
Mas logo o sim se espalhou.
Operar o Tricaster.
Segurar o Ao Vivo.
Operar VT.
Trocar câmera.
Subir vídeo no YouTube em cima da hora.
Editar programa gravado.
Editar matérias para o jornalismo.
Substituir colegas, e como se não tivesse o direito de falhar, ela administrava o seu dia com muito amor e satisfação, na certeza de que quando precisasse teria crédito extra.
Ela virou o plano B dos colegas e gostava disso demais.
Quando tudo funcionava, ninguém perguntava quem estava por trás, até aí tudo normal, como diz o ditado: Técnico bom é técnico desconhecido.
Timeline conhecia o setor operacional como quem conhece a própria casa no escuro. Sabia onde pisar. Onde não tropeçar. Sabia onde ninguém queria ficar.
Chegava antes com satisfação. Saía depois realizada. Almoçava correndo como já de costume.
O cansaço virou rotina. A sobrecarga virou costume. A ausência de reconhecimento uma regra.
E ainda assim, ela ouvia que precisava ser mais rápida. Precisava ser mais proativa. Mais flexível. Flexível… como se já não estivesse dobrada em suas várias funções.
Ser necessária não é o mesmo que ser valorizada.
Um problema em um programa. Um erro técnico. Um detalhe que escapou no meio do excesso.
Não foi o primeiro erro do setor. Mas foi o primeiro erro dela que decidiram lembrar. No outro dia, ninguém citou o histórico da nossa editora. Ninguém falou das madrugadas dela editando para que tudo saísse perfeito. Ninguém falou dos incêndios já apagados por ela em episódios anteriores que resultavam num trabalho perfeito indo ao ar.
Timeline não foi chamada para conversar. Foi chamada para ouvir. Para responder a pergunta que já tinha resposta: Quem é você para deixar um erro desse ir ao ar? Você é Incompetente!
O Silêncio de alguns segundos...
E com essas palavras, veio a demissão.
Fria.
Rápida.
Sem escuta.
A porta fechou.
O crachá perdeu sentido.
Pela primeira vez, Timeline parou.
Veio o vazio.
Veio a dor.
Veio a sensação de ter sido usada até o limite.
Mas veio também a clareza. Caixinhas Mágicas não amam. Elas operam.
Dizer sim para tudo é, muitas vezes, dizer não para si.
Timeline, depois de tanto chorar, lembrou de tudo o que sabe fazer. De tudo o que aprendeu sozinha. De tudo o que sustentou.
Ninguém pode demitir uma história.
Porque quem edita o mundo em cortes e silêncios também aprende a se reconstruir.
Talvez agora, ela edite diferente.
Corte o excesso. Ajuste o ritmo. E aprenda, finalmente,
a dizer: — Não
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