STORYTELLING N° 6 - O ASSÉDIO QUE QUASE APAGOU O BRILHO DA PROFISSIONAL
Quando a vida pessoal atravessa o trabalho, ela não bate na porta. Ela entra pela ilha de edição, senta ao lado, respira no mesmo ritmo da máquina e, se a gente não percebe, começa a cortar a própria alma em planos invisíveis.
Há cerca de vinte e dois anos, o mercado audiovisual não media qualidade. Media resistência. Era um tempo em que se dormia trabalhando e se acordava devendo entrega. O crachá era uma extensão do corpo e o relógio, um inimigo permanente. Vídeos nasciam com urgência e morriam sem descanso. Quem sobrevivia, aprendia a engolir pressão como café frio na madrugada.
Liza vivia para aquilo. Não tinha distrações. Os pais seguravam o mundo para que ela pudesse segurar as imagens. Não tinha namorado, viagens, melhores amigas ou planos fora daquela sala escura que cheirava a fita magnética e eletricidade. O amor que ela nutria era secreto, silencioso, distante com aquele vizinho de bairro que morava mais na sua imaginação do que na geografia. Um afeto guardado num canto seguro do coração, longe do barulho.
No trabalho, Liza era luz. Falava alto, ria fácil, observava tudo. Aprendia vendo. Aprendia calada. Sua atenção era confundida com interesse, sua gentileza com convite. Bastou isso para que histórias fossem inventadas em bocas que nunca perguntaram nada diretamente para ela.
Ela se aproximou de um colega. Inteligente, reservado, daqueles que falam pouco e sabem muito. Liza o admirava como se admira um quadro raro, sem intenção de posse. Ele ofereceu carona uma noite. Um bar. Conversa longa. Beijos breves, sem promessa, sem continuação. E acabou ali. Para ela, foi só isso.
Para os outros, virou romance épico.
O que era inexistente ganhou corpo nos corredores do trabalho. Piadas, olhares atravessados, fofocas mastigadas todos os dias. Liza seguiu. O tempo passou. Ela aprendeu a ignorar o que não tinha raiz.
Até que a empresa entrou em crise. Muita gente saiu. Cadeiras mudaram de dono. E um antigo colega virou coordenador. O poder pousou em alguém que nunca o teve, e isso mudou tudo.
Ele exigia demais da Liza. Queria mais tempo, mais presença, mais submissão. Passou a presenteá-la com lingeries, a convidá-la para sair, a confundir trabalho com posse.
Liza, inteira, clara, disse não. Disse alto. Disse basta.
O não foi o gatilho.
Vieram as perseguições. Funções acumuladas, horários esticados, tentativas de toque na ilha de edição, na sala de gravação, na saída tardia.
A violência se disfarçava de rotina.
Liza mudou-se para perto do trabalho. Dividiu um apartamento com a irmã recém-separada. Criaram um refúgio. Mas o trabalho continuava sendo o centro da vida. Até que o medo atravessou a porta.
Em um belo dia o coordenador passou a se dizer abandonado. Expulso de casa. É! Ele era casado, sim, mas um homem desesperado. Pedia abrigo à Liza. Pedia colo à Liza. Pedia salvação à Liza. Dizia que só Liza o mantinha vivo. Segurava a mão dela à força, colocava no próprio peito, implorava. Ela, sem saber o que fazer, paralisava. Não entendia por que havia sido escolhida para carregar aquele peso.
Quando ela recusou acolhê-lo, ele mudou de estratégia.
Ligava depois da meia-noite. Dizia que dormiria no carro, estacionado exatamente abaixo da janela dela, no quarto andar se ela não o acolhesse. E cumpria. Todas as noites. O carro ali. O som ligado. A ameaça silenciosa.
Liza adoeceu naquela situação. O corpo gritou o que a boca não conseguia. Febre, dor, inflamação, vômito, medo.
O Nokia tocava. Ela desligava. Olhava pela janela. O carro estava lá.
A irmã tinha ido embora, voltou pro marido. Liza ficou sozinha.
No trabalho, o coordenador espalhava mentiras. Dizia que dormia com ela, que saía do apartamento dela de madrugada. Ninguém acreditava na negação de Liza. O assédio era conhecido, mas normalizado. O silêncio coletivo era cúmplice.
Até que numa madrugada, Liza mentiu para sobreviver. Disse que tinha um namorado ao lado. Disse que não atenderia mais. O carro saiu cantando pneu.
No dia seguinte, o castigo: uma sala fechada, empoeirada, esquecida. Armários lotados de fitas Betacam, arquivos abandonados, o passado jogado num canto. Ela foi isolada.
E ali, no esquecimento, Liza fez o que sabia fazer: trabalhou. Limpou, catalogou, organizou. Transformou o caos em sistema. O arquivo ganhou vida. Ganhou respeito. Ganhou visibilidade.
Isso enfureceu quem queria vê-la pequena.
Vieram humilhações, ameaças, intimidações. O corpo continuou adoecendo. Mas as ligações cessaram. Os toques cessaram. O cerco afrouxou.
Quando parecia que tudo se acomodava, uma nova mentira foi plantada. O coordenador espalhou que Liza mantinha um caso com o antigo colega. Que era desprezada depois do sexo. Detalhe importante? Aos 21 anos, Liza ainda era virgem.
Foi o colapso.
Ela chorava sem controle. Não conseguia editar. Não conseguia existir. Os colegas se afastaram. O desprezo substituiu a empatia. Nenhum remédio curava aquela dor no peito.
Para se proteger, Liza deixou que a mentira sobrevivesse. O coordenador desistiu dela. Apaixonou-se por outra. Teve filho. Seguiu. Ufa!
Liza ficou.
Destruída. Doente. Sem sonhos. Trabalhando no automático. Sobrevivendo.
O tempo passou. O poder caiu. As energias se dissiparam. O outro colega se casou. Mas, a história errada permaneceu viva entre todos, mesmo vinte anos depois.
Mas a vida, silenciosa, também sabe montar novos atos.
Liza encontrou um amor. Casou. Teve uma filha. Voltou a querer crescer no trabalho.
As cicatrizes ficaram. A memória ainda dói. Mas todos os dias, em oração, ela tenta perdoar.
Deus nunca saiu do caminho dela.
E as fitas, aquelas fitas antigas, ainda guardam tudo o que ninguém quis ouvir.
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