STORYTELLING No 09 - FETICHE ÉPICO ENTRE EDITOR E JORNALISTA

Nos bastidores de uma emissora de TV existe um mundo que quase ninguém vê. Enquanto o público assiste ao telejornal na sala de casa, com o prato de jantar no colo e a vida acontecendo em volta, existe um pequeno universo escondido atrás das câmeras, dos cabos, das ilhas de edição e das noites mal dormidas. É ali que as histórias realmente acontecem.



Eu sou casado com uma jornalista. Hoje isso pode parecer apenas mais um clichê do meio audiovisual. Quem trabalha em TV sabe que esse tipo de história se repete como reprise de novela.

Todo mundo conhece alguma.

Tem o editor que se apaixona pela repórter nova da redação. Tem os romances rápidos, quentes, conturbados, que nascem entre uma pauta e outra. Tem os casos discretos que vivem escondidos nos corredores da emissora. Tem os casais que assumem e passam a circular juntos em festivais, eventos e happy hours da comunidade audiovisual, quase como um troféu de bastidores.

E tem também aqueles que vivem romances paralelos durante anos, sustentados por madrugadas de edição, deadlines impossíveis e uma rotina de exaustão que deixa as famílias em casa, protegidas da realidade que se desenrola nos estúdios.

Enfim.


A minha história também nasceu nesse cenário. Mas ela merece uma pipoca.

Eu comecei na edição há muito tempo. Naquela época eu era casado, tinha filhos pequenos e uma rotina que parecia uma maratona eterna. Minha esposa se dedicava integralmente à casa e às crianças, enquanto eu sustentava a família com o trabalho na televisão.

E televisão, como todo mundo que vive dela sabe, não tem hora.

Eu passava dias e noites dentro da emissora. Muitas vezes dormia sentado na cadeira da ilha de edição, porque precisava estar pronto novamente às seis da manhã do dia seguinte. Sem falta.

Era uma vida de cansaço crônico, café frio e monitores iluminando a madrugada.

Foi nesse período que ela apareceu.

Minha atual esposa chegou como estagiária e foi designada para ser editora de texto de um programa diário que ia ao ar todas as noites. Um programa famoso, desses que toda a cidade comenta no dia seguinte.

Eu era o editor exclusivo.

Para quem nunca entrou numa ilha de edição, vale explicar: normalmente é uma sala pequena. Às vezes muito pequena. No meu caso era minúscula.

A mesa comportava o computador, os monitores, o teclado, alguns papéis e a minha cadeira giratória. Atrás de mim ficava a cadeira da editora de texto. Tão perto que, se alguém espirrasse, o outro pedia saúde automaticamente.

Era proximidade demais.

Eu conseguia sentir a respiração dela no meu cangote.

E foi assim, na primeira vez que ela entrou naquela sala apertada, que aconteceu algo que eu nunca esqueci.

Um perfume.

Um perfume delicioso invadiu a ilha de edição como se tivesse aberto uma janela invisível no meio da madrugada de trabalho. Era um cheiro suave, elegante, impossível de ignorar.

Eu me arrepiei inteiro.

Aquele perfume me deixava estranhamente feliz e, ao mesmo tempo, profundamente preocupado.

Porque naquele momento eu percebi que estava encantado por aquela mulher.

Ela era extremamente concentrada no trabalho. Falava baixo, quase sussurrando no meu ouvido as orientações do texto.

— Corta aqui.

— Segura essa imagem mais um pouco.

— Agora entra a sonora.

E nós ficávamos ali, lado a lado, por horas.

Horas e horas.

Entre cortes de imagem, trilhas, offs e passagens, o trabalho seguia com cuidado. E nos intervalos naturais da edição, a conversa começava a fluir.

Primeiro tímida.

Depois longa.

Ela contava pedaços da vida dela. Eu falava dos meus dilemas, das minhas dúvidas sobre o mundo, sobre a vida, sobre as escolhas que fazemos.

Falávamos sobre crenças, sonhos, planos, medos.

E tudo isso acontecia naquela pequena ilha de edição, iluminada pela luz azulada dos monitores e envolta naquele perfume misterioso que transformava aquela jornalista numa espécie de fada luminosa da madrugada.


Enquanto isso, minha vida fora do trabalho estava desmoronando.

Meu casamento era um campo de guerra silencioso.

Brigas constantes. Desentendimentos. Falta de diálogo. Um desgaste que parecia não ter conserto.

Até que um dia minha ex-esposa decidiu colocar um ponto final.

Ela foi embora com nossos filhos.

Apesar da dor inevitável, conseguimos resolver tudo com certa maturidade. Pensando nas crianças. Evitando traumas maiores.

Ela foi morar com o pai. Eu fui para outra casa.

Aceitamos a pensão, dividimos os bens… ou melhor, eu deixei praticamente tudo para ela. Era o que me parecia justo naquele momento.

E então aconteceu algo que parecia inevitável.


Eu estava solteiro.

Livre.

Respirei fundo.

E me declarei para a jornalista mais cheirosa do mundo.

Detalhe curioso: até aquele momento eu ainda não sabia o nome do perfume. Ela dizia que era segredo.

Em um mês estávamos namorando.

Eu estava radiante. Leve. Verdadeiramente feliz ao lado dela.

E esconder aquilo no ambiente de trabalho foi impossível.

Quando nossos amigos perceberam, a reação foi unânime:

— EU JÁ SABIA!

Todos sabiam.

Menos nós dois.

Continuamos trabalhando juntos, com profissionalismo. Na ilha de edição éramos editor e editora de texto. Fora dali éramos dois apaixonados tentando entender a nova vida que surgia.


Até que veio um dia que eu nunca vou esquecer.

Eu tinha combinado de visitar meus filhos na casa do avô deles.

Quando cheguei, minha ex estava estranhamente agitada. Insistiu para que eu fosse ao quarto das crianças brincar um pouco com elas.

Eu obedeci.

Minutos depois ouvi um barulho estranho vindo da rua.

Quando saí de casa vi uma cena que parecia saída de um filme de terror.

Minha ex-esposa estava destruindo meu carro.

Com um pedaço enorme de ferro nas mãos.

Ela quebrava o vidro, amassava a lataria, golpeava o capô com uma fúria assustadora.

Meu Fiat branco.

O carro que eu tinha lutado tanto para comprar e deixar bonito estava sendo destruído diante dos meus olhos.

Eu fiquei paralisado.

O pai dela tentou segurá-la e não conseguiu.

Meus filhos gritavam, chorando, pedindo para ela parar.

Eu tentei me aproximar para impedir.

Quase fui atingido pelo ferro.

Ela só parou quando tudo já estava destruído.

E gritou, com ódio:

— VOCÊ ME TRAIU COM AQUELA ZINHA!

O que veio depois foram alguns dos dias mais difíceis da minha vida.

Polícia.

Advogado.

Família.

Conversas intermináveis tentando resolver uma situação que, na prática, tinha sido uma tentativa de agressão grave.

E parecia que aquilo ainda não era o final.

Duas semanas depois ela apareceu no meu trabalho.

Tentou entrar.

A recepcionista não permitiu.

Ela agrediu minha amiga da recepção.

Entrou.

Subiu os degraus da emissora.

Invadiu a redação.

E partiu para cima da minha namorada.

Quebrou uma mesa.

Quebrou uma cadeira.

Foi um caos.

Parecia cena de filme de ação. Gritos, gente correndo, segurança tentando intervir.

Ela não aceitava o meu novo relacionamento.

Insistia em dizer que eu tinha traído.

Mas a verdade é simples: eu nunca a traí.

Meu coração já estava apaixonado, é verdade.

Mas eu sempre fui fiel ao que eu acreditava ser correto.


Meses depois de toda aquela tempestade, eu fui morar com a minha jornalista.

E finalmente descobri o segredo do perfume.

Segundo ela, era um perfume com feromônio.

Daqueles que dizem ser capazes de conquistar qualquer pessoa que passe por aquele cheiro.

Eu ri quando soube.

Mas confesso: talvez tenha funcionado.


Hoje somos casados.

Temos uma filha linda.

Convivo em paz com meus filhos.

Minha ex-esposa também refez a vida e se casou novamente.

Ela nunca me pediu perdão. Mas eu a perdoei.

Não convivemos. Não temos contato além do necessário.

E, sinceramente, não guardo rancor.


A vida seguiu.


E conto essa história hoje porque sei que muitos editores por aí estão vivendo romances intensos nas ilhas de edição, entre cortes de imagem e jornalistas talentosas, lindas e perigosamente perfumadas.


Eu sei.


Porque eu já estive exatamente ali.

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