STORYTELLING N° 08 - QUANDO A EXPERIÊNCIA DIMINUI O VALOR DO EDITOR
Aprendiz de Si Mesmo
Dez anos de experiência numa empresa de comunicação deveriam pesar como medalha no peito. Deveriam abrir portas automáticas, servir café quente nas entrevistas, fazer o RH sorrir antes mesmo do “bom dia”.
Ledo engano.
A carreira de editor de vídeo não é linha reta. É montanha russa com trilho frouxo, parafuso solto e operador distraído. Um dia você está no topo, com o vento no rosto e o mundo aos seus pés. No outro, despenca sem aviso, segurando apenas a própria respiração.
Houve um tempo em que eu sabia demais. Sabia do hardware como quem conhece as manhas de um carro antigo. O barulho do HD denunciava problema antes de qualquer diagnóstico. Dominava o software com a intimidade de quem sabe onde cada botão dorme. Color grading era poesia. Corte seco era vírgula precisa. Transição bem feita era ponto final elegante.
Eu produzia muito. Produzia bonito. Produzia rápido. Viajava para eventos, aprendia com profissionais que eram referência, trocava figurinhas técnicas sobre codecs, plugins e fluxos de trabalho. Ganhava bem. Ganhava muito. Ganhava mais. O telefone não silenciava. Freelance de madrugada, hora extra no fim de semana. Eu era o editor que resolvia. O que salvava material corrompido. O que entregava antes do prazo. O que dava aula-show sobre a própria área.
A ilha de edição era meu trono. Três monitores acesos pareciam vitrais modernos iluminando meu rosto cansado e satisfeito.
E então, três anos depois, fui demitido.
Sem trilha sonora dramática. Sem câmera lenta. Só um e-mail seco e uma conversa breve demais para dez anos de história. Saí com uma caixa de papelão, duas canecas e a sensação de que alguém tinha apertado delete na minha linha do tempo.
O desemprego não chega gritando. Ele entra como poeira. Primeiro cobre a mesa. Depois a estante. Quando você percebe, está respirando escassez.
Vieram os freelances para pagar contas básicas. Vieram os trabalhos para “amigos de amigos” que nunca pagaram. Vieram as promessas de depósito que “caíram errado”. Entrei em roubadas com gente de sorriso fácil e contrato inexistente.
O aluguel atrasou. O dono do imóvel, que antes me chamava pelo nome com carinho, passou a bater na porta com impaciência. Tive que sair. Mudar de casa é desmontar a própria história em caixas. A casa menor não suportava meus móveis. O desapego foi obrigado a morar nas mãos, na cabeça, no coração.
A alimentação virou cálculo. Comer deixou de ser prazer, virou estratégia. Dormir deixou de ser descanso, virou interrupção. Amigos de bar desapareceram na mesma velocidade em que o limite do cartão estourou. O relacionamento desgastou. A família virou campo minado de cobranças e silêncios. No meio disso, perdi pessoas que amava para a morte. O luto não pediu licença. Só sentou ao meu lado.
O corpo adoeceu. A farmácia virou destino frequente. A aparência mudou. O brilho foi substituído por olheiras fundas e uma barba que já não era estilo, era descuido. Ninguém mais se aproximava. O clima dentro de mim alternava entre calor sufocante e frio úmido. Criou mofo. Literalmente e metaforicamente.
Foram mais três anos vivendo a conta da escassez. Dívidas guardadas na gaveta da cômoda como cartas que eu não tinha coragem de abrir. Não havia nem como começar a pagá-las.
Até que, no momento mais vazio, surgiu uma oportunidade de estudar. Na mesma área. A única em que eu já tinha sido chamado de mestre.
Ironia é um roteirista experiente.
Sentei novamente numa carteira de estudante. Eu, que já tinha dado aula-show, agora copiava anotações. Aprendi a ouvir de novo. A perguntar sem vergonha. A aceitar que o mundo tinha mudado enquanto eu tentava sobreviver.
Veio uma chance de estagiar. Assistente técnico. Auxiliar. O faz-tudo. E eu aceitei feliz.
VAMOS LÁ.
O pagamento era o mínimo. Não existia mais piso salarial que me abraçasse. Sindicato ativo era lenda urbana. Um salário mínimo estava “de bom tamanho”. Dava para pagar a quitinete. Dava para o transporte. Dava para comer dia sim, dia não. Dava para aproveitar o almoço da empresa com gratidão sincera.
Gratidão não paga boleto, mas sustenta o espírito.
Com o tempo, a experiência começou a render um extra. Pequenos trabalhos. Pequenos valores. Deu para comprar umas roupas novas. Um tratamento básico de cabelo. As unhas eu mesma aprendi a fazer. Autossuficiência estética também é sobrevivência.
Mas o extra exigia horas dobradas. Atenção plena. Multifuncionalidade. Multi habilidade. Força de vontade que parecia ser produzida em laboratório interno. Acordar de madrugada e dormir tarde virou rotina. A saúde oscilava. Física e mental.
As orações se multiplicaram. A fé foi ressignificada. Não era mais sobre pedir sucesso. Era sobre pedir equilíbrio. Força para continuar. Sabedoria para aceitar. Coragem para recomeçar quantas vezes fosse necessário.
O ambiente de trabalho mudava a cada dia. Novas demandas. Novas plataformas. Novos formatos. Eu, que já tinha dominado tanto, agora reaprendia tudo. Descobri que ser aprendiz não era retrocesso. Era reinício consciente.
Há uma humildade silenciosa em aceitar o crachá simples depois de já ter tido cargo pomposo. Há uma dignidade enorme em fazer o básico com excelência. Há uma força quase invisível em continuar quando tudo em volta sugere desistência.
Hoje eu entendo que os dez anos de experiência não eram respaldo. Eram bagagem. E bagagem pesa. Às vezes é preciso abrir a mala no meio do caminho, jogar fora o que não cabe mais e seguir com o essencial.
Ser aprendiz se tornou minha nova fase como editor de vídeo.
Aprendiz da tecnologia que muda mais rápido que as estações. Aprendiz das pessoas. Aprendiz da escassez e da abundância. Aprendiz da própria fé. Aprendiz de mim.
A montanha russa continua. Ainda há subidas vertiginosas e descidas inesperadas. Mas agora eu seguro diferente. Não pelo medo de cair. Seguro pela consciência de que já sobrevivi a quedas maiores.
E se me perguntarem hoje o que dez anos de experiência me deram, eu não direi estabilidade. Direi resistência.
Porque no fim, mais importante que dominar o software é aprender a reprogramar a própria história.
E nisso, sigo editando. Frame por frame. Com paciência. Com coragem. Com a certeza de que cada corte, por mais dolorido que pareça, ainda faz parte do filme da minha vida.
Conte-nos a sua história além do roteiro enviando para o nosso e-mail:
papodeeditor.alemdoroteiro@gmail.com
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